Se já a música portuguesa vende pouco, em particular os novos talentos, menos venderá. Isto significa que vão, inevitavelmente, diminuir as edições. Seguir-se-ão os problemas financeiros para todos os intervenientes da indústria discográfica, começando no músico, passando pelos estúdios, editoras e distribuidoras e acabando nas lojas. O resultado final reflectir-se-á num aumento do desemprego. Mas não só. O pouco novo talento a ser editado corre sérios riscos de ser um fracasso. Porquê? Porque o consumidor joga, habitualmente, pelo seguro. Ou seja, o seu já modesto orçamento musical será gasto em discos onde ele acredita que o investimento será proveitoso. Logo comprará trabalhos de nomes sonantes internacionais e nacionais, com a grande fatia a recair sobre os primeiros, como não poderia deixar de ser. Os novos projectos irão praticamente desaparecer. E todo este processo de declínio acabará por ter efeitos secundários noutras duas áreas. A dos instrumentos musicais e a dos espectáculos. Mais uma vez o fantasma desemprego vai bater à porta.
Perante este cenário a alteração da Lei da Rádio parece-me ser uma coisa ridícula. Digo mais, é uma manobra vergonhosa dos políticos portugueses que não passa de uma forma de acalmar os ânimos e calar algumas vozes. É o típico “calam-se os rapazes se lhes dermos algo em troca”. Mas de que serve uma Lei da Rádio com quotas obrigatórias para a música portuguesa se o mais certo é ela estagnar? Do que precisa, afinal, a música portuguesa? De quotas que, na realidade, se transformarão em nostalgia ou de coisas novas, de inovação e de valorização dos novos valores? A música portuguesa precisa, isso sim, de condições para evoluir e se modernizar e isso só é possível com apoios à edição discográfica de novos talentos, como sucede com as edições literárias, da redução do valor do IVA nos discos e instrumentos musicais e com a atribuição de verbas de apoio à internacionalização, em particular à participação em festivais e feiras internacionais.
A música não deve nem nunca deveria necessitar de quotas para se afirmar e ser ouvida. Não. A música não tem nada que ver com pesca ou agricultura para lhe serem imputadas quotas. A música é arte e arte não é algo que se deva manipular. Um músico que se regozija por um sucesso fruto de um impingir da sua música “à força” não é um artista mas sim um comerciante. E aqui há que saber distinguir entre o atingir o sucesso fruto do grande airplay radiofónico, da participação em novelas e anúncios comerciais. Sim, porque aqui chegou-se lá por mérito, astúcia ou estratégia de marketing, nunca por uma imposição. E as quotas obrigatórias são uma imposição.
Por outro lado, como podem os nossos deputados falar de obrigatoriedade quando se fala de mercados livres? A música existe para ser ouvida venha ela de onde vier. E se, porventura, num futuro próximo e caso a Lei da Rádio venha a ser aprovada (duvido que venha a ser aplicada por falta daquilo que tanta falta faz em Portugal e que dá pelo nome de “inspecção/fiscalização”) vier alguém apresentar uma queixa contra uma rádio por estar a ultrapassar as quotas de música portuguesa e a “discriminar” a música do mundo? O que farão os nossos políticos? Aplicarão uma coima por excesso de passagem de música nacional tal como a União Europeia faz com os estados membros que ultrapassam as quotas estipuladas, por exemplo, para a produção de batata?
Como vem sendo hábito no nosso país tentam-se resolver os problemas por cima e não por baixo. Não se combate o mal pela raiz. Se realmente se quer “ajudar” a música portuguesa a afirmar-se tem que se começar obrigatoriamente pelas bases e só depois ir escalando até ao topo. Se assim não for é tempo perdido e andamos sempre a debater os mesmos problemas ano após ano chegando, muitas vezes, a ser uma coisa verdadeiramente entediante. E quando o tédio se apodera de algo já todos sabemos o que se lhe segue: a perda de interesse e o esquecimento.

Jorge Baldaia
by mPm dj
5 comentários:
Infelismente temos o país que temos! É claro que com isto quem mais ganha é quem menos faz por merecer, os piratas. Nem os autores nem o estado ganham, embora os mais prejudicados sejam os autores. Por mim, viva a NET: é fácil, é barato e dá milhões de discos para eu ouvir. É o totoloto dos melómanos!!
nel colaça.
Claro que o Estado deve ser responsabilizado pela questão do IVA, mas a ganância da "Industria Musical", através dos preços praticados continua a ser o maior entrave ao combate à pirataria.
De certa maneira, foi também o decréscimo nas vendas de álbuns, que obrigou a bandas a dar mais concertos para compensar o dinheiro que "perderam". Aí quem benefecia é o consumidor. Onde alguma vez em Portugal poderíamos ver certos nomes da cena musical mundial se as grandes bandas continuassem a vender 20 milhões de exemplares por àlbum? Não veríamos! Apenas tento completar o ponto de vista do Baldaia, quando digo que o decréscimo de vendas de álbuns veio, a meu ver, obrigar as bandas a ser mais "humildes", fazendo do seu sustento um processo de maior transpiração (concertos), e menos de inspiração (vendas de álbuns), e nisso acho que o consumidor foi benefeciado.
Abraço!
Quanto há música portuguesa, se algum dia as quotas se cumprirem, espero que não façam como em Espanha, que traduzem tudo o que é lixarada estrangeira (sim, Celine Dion já é mau, mas cantado em espanhol...) para cumprirem a lei. Para ouvir degredo prefiro o nosso José Cid (mau por mau que seja nosso), mas de preferência que invistam em novos nomes, mas até a lei se cumprir...
Enfim!
Abraço!
Eu sou fá do josé Cid. A sério. É um dos melhores e mais passados da música potuguesa. E já foi muito á frente.
Abraço
Nuno falas do album não sei quê Venus dos anos 80 verdade? considerado um dos melhores albuns da altura, um album avantgard, e q ainda hoje influência muito boa gente.
abraço
baptista
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